MESTRE LUIZ PAIXÃO: UM DOS MAIS IMPORTANTES RABEQUEIROS DO BRASIL

Dos canaviais da Zona da Mata de Pernambuco surge um grupo de brincantes que encanta pela magia das suas vestimentas, oralidade e personagens. Homens, mulheres e crianças vivenciam de maneira profunda a expressão musical do cavalo marinho, considerado patrimônio cultural imaterial do Brasil, misturando o profano com o sagrado em rimas da arte do improviso e nas encenações e danças.

Em todo território pernambucano encontramos ainda 12 grupos de cavalo marinho, mas é na Zona da Mata que essa tradição está mais presente, especialmente como herança da monocultura gerada com as atividades econômicas dos engenhos de cana de açúcar. Já que os trabalhadores usavam os terreiros dos engenhos para se reunirem e realizem as apresentações.

Os festejos do cavalo marinho marcam a tradição religiosa do Dia de Reis, no mês de janeiro, que tem origem portuguesa e segue fielmente as manifestações do catolicismo. A herança europeia é influenciada pela regionalidade, além da dança, música e poesia temática desse folguedo. Com espetáculo cheio de cores, cânticos e religiosidade, os brincantes homenageiam os Três Reis Magos.

Na cidade de Condado, conhecida pela “Terra do Cavalo Marinho” encontramos Luiz Alves Ferreira, de 71 anos, popularmente conhecido por Mestre Luiz Paixão, que se destaca pela criatividade, talento e experiência. Sua trajetória com a rabeca se confunde com sua própria história e o qualifica como um dos mais importantes rabequeiros do Brasil.

Natural da cidade de Aliança, ainda na infância passou a morar em Condado, onde começou a trabalhar no corte da cana, aos oito anos de idade, ajudando o pai, Odilon Paixão. Sua família se destaca pela presença de ilustres rabequeiros, especialmente por conta de seu avô Manoel Alves, tios e primos. O músico conheceu cedo o instrumento e aos 10 anos já se dedicava a ensaiar, de forma escondida. “Eu tocava um pandeiro e ficava de olho na rabeca. Então, comecei a pegar na rabeca escondido. Até que um certo dia mostrei ao meu tio que eu sabia tocar. De lá para cá, não parei mais”, conta.

Luiz Paixão é autodidata e conseguiu expressividade e técnicas singulares. O seu envolvimento com o cavalo marinho veio na adolescência, quando aos 15 anos já se apresentava em grupos da região. Foi acompanho o avô, aos finais de semana, nas apresentações de cavalo marinho que despertou o interesse em participar. “A minha primeira apresentação foi para tocar o cavalo marinho e já me apresentei em muitos grupos aqui na região”, relata orgulhoso.

Desde então já se passaram mais de seis décadas dedicadas à cultura popular, com participações também no Coco e Forró. Um dos seus diferenciais é usar a rabeca para tocar forró. O aperfeiçoamento do exímio instrumentista foi através da tradição dos cavalos-marinhos e nas noites de forró nos engenhos, sempre regadas pela musicalidade; O talento revela seu estilo único, além de ser um nato compositor com a sua sonoridade ímpar.

Sobre a sua companheira nas apresentações, ele afirma que desde 2003 usa a mesma rabeca que recebeu o nome de Maria Chiquinha. Com o sorriso no rosto, muito típico dele, conta que “inventamos de batizar ela na casa de Renata Rosa, em São Paulo. Aí escolhemos Marinha Chiquinha”.

O primeiro CD da sua carreira, lançado em 2005, recebeu o título “Pimenta com Pitu”, no qual expande a sonoridade da rabeca dentro do forró, do cavalo marinho e do coco de roda. “Na hora de escolher o nome coloquei pimenta com Pitú, porque eu bebia e fumava muito, quando bebia fazia o meu tira-gosto de pimenta com Pitu”. O músico realizou também o lançamento desse trabalho na França. O segundo CD “Mestre Luiz Paixão- A Arte da Rabeca”, lançado em 2012. Ele gravou o terceiro disco em São Paulo, mas ainda não há data definida para o lançamento.

Luiz Paixão já representou o Brasil em eventos como o Congresso de Etnomusicologia, na Flórida (EUA- 1999), a convite de Jonh Murphy, etnomusicólogo da Columbia University. Participou do Encontro da Rabeca, Violino e Orocongo no Sesc Ipiranga (São Paulo- 1998), a convite do músico Antonio Nóbrega.

Como reconhecimento ao seu trabalho reúne vários prêmios nacionais, como o Prêmio FUNARTE- Interações estéticas (2009, 2010 e 2012), Prêmio Mestre Griô - Ministério da Cultura (2009), Projeto Pixinguinha- FUNARTE (2008) e Mapeamento Rumos do Itaú Cultural (2008).

Em sua trajetória destaque para a sua discografia com as participações em discos como “Mestre Ambrósio” (1996), “Fuá na Casa de Cabral”, Mestre Ambrósio (1999), “Aboiando a Vaca Mecânica”- Lula Quiroga (2002), “Zunido da Mata” -Renata Rosa (2002), “Música dos Rabequeiros”, compilação (2003), “Cavalo- Marinho, Musique du Monde”, Busa Music (2003), “Caçuá”- Nicolas Krassik (2006), “Manto dos Sonhos”- Renata Rosa (2008), “Lia de Itamaracá” (2008), “Cláudio Rabeca”- 2009 e Rabequeiros de Pernambuco”- Cláudio Rabeca (2012).

Boi Brasileiro- Sua ligação com o cavalo marinho Boi Brasileiro, de Condado, inicia desde o primeiro ensaio do grupo, no ano 2.000. O fundador foi o seu sogro, Biu Roque. Sobre a importância dele para a cultura popular, Luiz Paixão pontua que “Biu Roque é um artista que tocava ciranda, coco e cavalo marinho. Ao falecer ele comentou com as filhas que não deixasse o Boi Brasileiro morrer. Então, eu já tocava com ele e segui tocando essa missão até hoje. Se eu não tivesse a consideração tinha ficado somente com o meu forró. Mas, como meu sogro deixou a missão de tomar conta do cavalo marinho, aqui estou manobrando”.

Luiz Paixão relembra ainda os momentos áureos do cavalo marinho quando havia um tempo maios para as apresentações e a apreciação dos turistas e visitantes. Para o futuro ele segue confiante e deixa o recado: “eu vou levando e fazendo isso até quando Deus vier me buscar. Tudo aqui, assim como o meu sogro deixou, quando eu for embora, pode ficar para a mulher e os meninos tomar conta ou outra pessoa que brinca com a gente no grupo”.

A trajetória do Mestre Luiz Paixão revela que são mais de 60 anos dedicados a arte da rabeca e um legado significativo para a cultura pernambucana.

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